Discutimos
em sala o texto Noção de criança e infância: diálogos, reflexões, interlocuções
de Michele Guedes Bredel de Castro, destacamos os seguintes pontos: O
significado da infância, o novo olhar da infância e as várias infâncias e o
rompimento com o adultocentrismo.
Há de se entender, entretanto uma
diferença de significação entre os termos infância e criança, infância evoca um
fase, um período da vida humana, a palavra infância em si evoca um período onde
a pessoa seja incapaz de falar, de se expressar. Já o termo criança indica uma
realidade psicobiológica. Essa impossibilidade de falar, de usar a Língua como
forma de expressão traz em si toda uma carga preconceituosa que remonta o
pensamento de Santo Agostinho, para ele a criança como fruto do pecado carnal
dos pais, e incapaz de se expressar, não possuía a racionalidade, atributo
oriundo de Deus. Ela, pois deveria ser educada, purgada, purificada e
condicionada a se afastar de seus desejos inerentemente libidinosos e
pecaminosos, deixando sua natureza diabólica e aproximando-se de Deus, isto é
da razão, própria dos adultos.
Hoje, entretanto, não é esse o olhar
que temos da infância, ainda que resquícios dessas visões permaneçam, haja
vista as práticas adultocentristas ainda comuns, hoje estudamos a infância
dentro de uma perspectiva social, não desprezando os aspectos universais e biológicos,
mas também se entendendo a infância como uma condição historicamente construída.
Chariot nos alerta que o estudo da infância numa perspectiva social, revela-nos
uma imagem que se altera conforme os diferentes sistemas filosóficos e pedagógicos
considerados, ou seja, a representação da infância é socialmente determinada,
exprimindo as aspirações e negações dessa mesma sociedade. Tal representação,
entretanto, não é um dado natural ainda que biologicamente a infância o seja.
Temos, portanto duas infâncias que coexistem, a biológica e a socialmente
construída, e podemos ainda afirmar que ambas caminham em ritmos distintos.
Os modernos estudos entre eles a
sociologia da infância vem rompendo esse adultocentrismo, e defendendo o fato
que as crianças não são atores passivos e sim atores ativos dentro da
sociedade, necessita-se, pois estudar a infância por si própria, entendendo a
criança como ser social, histórico e produtor de cultura. Além disso, esses
estudos admitem a existência de múltiplas infâncias desprezando uma concepção
uniformizadora e irreal, entendendo que a criança enquanto ser social diversifica-se
nos diferentes estratos sociais: classe social, etnia, gênero, lugar do planeta
onde vivem, sendo afetadas e transformadas por essas diferenças. Não existirá,
pois infâncias iguais e indo mais longe não existirão duas crianças que
vivenciem a infância da mesma forma.
Percebemos portanto a importância de compreender a relação da Língua com a construção do conhecimento e construção de mundo, e como essa relação modifica nossa relação com o dito mundo real. As diferentes visões de infância alteram nossa forma de contato com a criança e em consequência nossa maneira de ensinar.